Show de Horrores na Mídia

Há algum tempo atrás eu recebi uma reportagem que saiu na Revista Galileu (edição de abril) sobre testes psicológicos. E, confesso que fiquei em dúvida se comentaria sobre o assunto, mas houve tanto reboliço que eu decidi trazer a tona para conversarmos sobre o assunto.

Para começar, se você não leu o artigo não perca o seu tempo. Ele não vai te acrescentar em nada (talvez algumas rugas de indignação).

No artigo intitulado “Divã sem Rolo” o autor relata previamente como surgiram os Testes Psicológicos, e dá uma ênfase no livro intitulado “Psi-Q” do qual fala sobre esta ferramenta com uma explicação e análise. Durante todo o artigo o autor demonstra ironia sobre a validade dos testes. Inclusive no início ele já trás a seguinte frase: “parece ser só mais um teste duvidoso – e é mesmo”.

Há também falas de uma possível entrevista com um dos conselheiros do CFP, dos quais ele afirma que testes são limitantes e que é necessário perceber o ser humano como um todo. O modo como foi exposta a fala dele, junto com o tom de ironia do artigo não foi favorável para o Conselho.

Eu sinceramente acredito que houve um recorte um pouco maldoso da fala do conselheiro. E, penso que ele quis dizer sobre não usar somente um teste como ferramenta, já que é recomendado o uso de mais de uma ferramenta de Avaliação Psicológica para chegar a uma conclusão.

Mas não foi isso que pareceu.

Sabemos que as mídias, por mais sérias que pareçam, podem ser tendenciosas. E, pode ter acontecido isto neste momento. O que não tira a responsabilidade do Conselho, como instituição série que espera que seja, deveria ter conferido a reportagem antes da publicação. 

De volta à reportagem, depois desta introdução houve a exposição de alguns testes que estão no livro citado. Aparentemente este é um livro sobre testes, e foi escrito com o objetivo de expor e desmistificar esta ferramenta. E deixa dúvidas sobre seu caráter ético e psicológico.

Na demonstração de testes, eles elegeram alguns para mencionar dentro da reportagem e começou com o Rorcharch. Além da exposição de todas as pranchas, ação da qual é proibida, e faz com que a validade do mesmo seja contestada, há a explicação superficial do que cada prancha representa.

Ou seja, invalidou totalmente o teste para quem leu o artigo.

Este é um teste de um conhecimento profundo, e, além do descaso já vivenciado por ser escancarado para qualquer um que digitar seu nome no Google, não haver o mínimo de fiscalização pelo descompromisso desta ferramenta, agora, temos que nos deparar com ser invalidado em uma revista de grande circulação.

O modo como foi exposto, me deu a sensação que acreditam que não há nenhum fundamento científico, e que é só mais uma ferramenta boba que os Psicólogos usam para enganar pessoas.

Você acha que está ruim? Calma que vai piorar!


Em um segundo momento há um teste de memória muito duvidoso, e que em sua introdução está afirmando que um macaco consegue acertar este teste em 2 segundos, e propõe o leitor a fazer também. É uma memorização de números em lugares diferentes, que devem ser copiadas na página seguinte.

Nunca soube deste teste, e aparentemente não é conhecido e nem reconhecido pelo Conselho. E, se fosse, seria outra ferramenta invalidada.

Novamente banalizando os testes com comparações infundadas.

Em um terceiro momento foi ressaltado no artigo sobre Quiromancia, sim, aquele conhecimento que associa o tamanho de algumas partes do corpo com certas habilidades, comportamentos e até valores pessoais. Nesta reportagem foi exposto sobre um cálculo realizado através do tamanho do dedo que teria relação com gênero e nível de agressividade. E, inclusive tem uma explicação científica.

Lembrei-me da teoria que surgiu e já foi invalidada há anos atrás, quando surgiu a Psicologia, que associava o tamanho da cabeça da pessoa com honestidade. Lembram dessa parte de história da psicologia? Inclusive prendiam pessoas que tinham a cabeça de determinado tamanho, pois afirmava que tinha predisposição a furtar. 

Seria uma réplica dessa teoria? Seria um retrocesso?

Não só replica de um retrocesso, como afirmam que nós Psicólogos utilizamos de tais técnicas. Será que o autor pensa que o processo terapêutico é a atividade de medir partes dos corpos de nossos clientes? Espero que não.

E para finalizar, e sem chave de ouro, foi exposto um teste sobre o que seu estilo musical diz sobre sua personalidade de uma forma extremamente superficial com conclusões nada científicas, e, (pasmem) como você posiciona o rolo de papel higiênico diz sobre sua personalidade!

Com relação ao rolo de papel higiênico ressaltaram que não se trata de um teste psicológico, mas acharam tão interessante que colocaram. O que quer dizer que os outros são, segundo estes. E com relação ao teste da escolha musical, é de uma superficialidade que me faz entender do porque da ironia do autor desta reportagem.

Em resumo, este artigo foi um show de horrores!

O autor dessa reportagem pobre, simplesmente ironizou uma ferramenta que nós usamos, não houve a menor pesquisa quanto à veracidade das informações, invalidou testes pela exposição e explicação (mesmo que superficial), não procuraram saber o que é realmente um teste psicológico, difamaram a nossa atividade com esta ferramenta...

....e pior, ainda houve uma entrevista estranha com um membro do Conselho para colocar isto tudo como verdade. Eu aguardei um tempo para poder escrever este artigo, pois eu realmente esperava que alguém do Conselho se pronunciasse, mas a única coisa que se ouviu foi o silêncio de que quem cala consente.

E nós!?

Neste show de horrores ficamos com o papel de palhaço, que luta pela informação dos desinformados.

Eu acredito que ferramentas que não são testes psicológicos, mas, testes construídos por outras fontes são interessantes e devem ser usados quando há uma base lógica científica. Mas, não podemos confundir e tampouco desmerecer o que é exclusivo nosso. E foi o que aconteceu nesta reportagem.

Cabe a nós a reflexão sobre com quais desinformações estamos lidando. E eu, só sei que neste show, não quero ser a palhaça.

Autor Tássia Garcia

Tássia Garcia

@tassiagarcia

Eu sou Tássia Garcia, psicóloga por formação e empreendedora por vocação. Aprendi estudando, errando e praticando que ser Psicóloga é muito mais que eu aprendi na graduação. Atualmente utilizo meus conhecimentos em avaliação psicológica, inovação profissional e a experiência como coach e consultora para auxiliar outros profissionais a se posicionarem no mercado, construir estratégias de marketing e terem maior reconhecimento.

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