Quero trabalhar com mães, por onde eu começo?

Este artigo é dedicado a qualquer colega psi, que queira trabalhar com mães, mas não sabe por onde começar. Mais que isto, gostaria de dedicar esse conteúdo também para aqueles que desejam trabalhar com mães, mas não tem filhos, e por isso, tem receio de não conseguir atuar neste nicho. Então, independentemente de você ter filhos ou não, este texto foi feito com muito carinho pra você!

Vamos começar com uma questão que ouço com certa frequência: Ana, mas eu não tenho filhos, como posso atuar com mães? Alguns colegas acreditam que pelo fato de não ter filhos, podem não ter credibilidade dos pacientes. Ou ainda, que isto não vai ser suficiente, afinal, só desejar atender pais, sem ter filhos, não vai passar segurança já que ainda não passou por aquela vivência. E agora, será que é assim mesmo? Será que faz sentido?

Bom, primeiramente quero sugerir uma pequena reflexão, e que do meu ponto de vista é a questão principal. Será mesmo que você precisa vivenciar todas as coisas que seus pacientes vivenciaram, para só então poder exercer um trabalho com qualidade, respeito, empatia e ética? Se sim, acho que temos um grande problema, não é mesmo? Teríamos necessariamente ter passado pelo vício para cuidarmos dos adictos, ou termos problemas com a própria sexualidade para tratarmos quem tem alguma disfunção.

O raciocínio se aplica à maternidade da mesma forma, por isso eu te afirmo com segurança e confiança que NÃO, você não precisa obrigatoriamente ser mãe para atender este público. Ser mãe e psicóloga não te garante nada, além de no máximo, uma maior identificação com alguns acontecimentos de vida daquela paciente.

Mas afinal, o que faz diferença então?

Quer atender mães, sendo respeitada(o) e reconhecida(o)? O primeiro passo e, do meu ponto de vista, o mais essencial, é ir à busca de conhecimento, MUITO conhecimento. Mas veja bem, não me refiro apenas à teoria, pois a teoria é necessária sim para orientar ou guiar nosso trabalho, mas te garanto que, como psicóloga que atua há quase dez anos com mães, muitas vezes o “conhecimento” a que me refiro, é aquele que não vem necessariamente dos livros, mas do contato de quem vive a maternidade, do dia a dia das famílias, das escolas, dos profissionais que trabalham com mães e seus filhos, com pais de uma forma geral.

Ou seja, você precisa estudar de perto, bem de perto, o seu público. Conversar com muitas famílias, ouvir o máximo de mães que conseguir, entrar em contato com profissionais de saúde que atuem neste segmento, com escolas, participar de eventos sobre maternidade (encontros, seminários, por exemplo), ler revistas específicas deste segmento – Pais e Filhos, e revista Crescer, por exemplo. Participe de comunidades no facebook, compre livros de histórias de mães, não apenas de teoria. Enfim, meios de buscar este conhecimento “prático” é que não faltam.

Hoje em dia temos redes sociais que nos facilitam, e muito, esta busca pelo o que nosso público pode precisar ou gostaria que fosse trabalhado. O próprio Instagram pode ser uma excelente ferramenta para isto, use os stories, coloque uma caixinha de perguntas, por exemplo, com algo como “Mães: quais suas principais dificuldades no dia a dia?”, ou “Mães: o que você gostaria que o mundo soubesse sobre o seu maternar?”. Aliás, psicólogos que trabalham com mães também podem ser uma boa fonte de inspiração e conhecimento para você que pretende atuar nesta área. Aproveite para acompanhar o trabalho de alguns deles nas redes sociais, existem vários. Use e abuse da sua criatividade, o que não nos falta hoje em dia, são ferramentas e formas de correr atrás, opções para poder ouvir verdadeiramente nosso público alvo.

Agora uma questão fundamental, por favor, preste atenção! Quando eu falo em ouvir verdadeiramente, tenho um pedido especial: ao ouvir a história ou vivência de uma mãe, deixe de lado todo e qualquer julgamento ou ideia prévia do que você considera ser uma boa mãe ou não, ser certo ou errado. Não permita que as suas próprias vivências e/ou pessoas ao seu redor, influenciem na forma como você vai atuar com seus pacientes. Eu sei que isso parece um tanto óbvio, mas acredite, já vi isso acontecer algumas vezes quando supervisionei a outros colegas que também atuam na área da maternagem. Afinal, especialmente se você já for mãe, vai se confrontar com situações muito parecidas ou conflituosas, mas lembre-se, você está no papel de psicoterapeuta neste momento. Caso algo impacte ou mexa com alguma questão sua, busque trabalhar isso na sua própria psicoterapia, com o seu psicólogo, não confunda os papéis, ok?

Mas e a teoria sobre maternagem ou parentalidade, Ana? Devo buscar? Sem dúvida alguma, como mencionei anteriormente, a teoria é sim importante, e temos excelentes autores e livros sobre o assunto. Posso indicar dezenas deles a quem tiver interesse. Particularmente, indico aqueles que te mostrem mais a realidade, e menos a romantização. Eu mesma, participei como coautora de um livro sobre primeira infância, com um capítulo sobre maternidade, onde tem vários especialistas neste tema. São muitas opções de teoria, de diferentes linhas de pensamento, basta saber o que você mais se identifica.

Vale lembrar que não basta teoria sobre parentalidade, maternagem, ou assuntos relativos a mães, mas também sobre famílias, crianças, adolescentes, relações familiares, e afins. Este é um grande oceano, onde os temas são inúmeros, por isso, precisamos de muito tempo e dedicação, seja na teoria ou na busca de conhecimento informal.

Ótimo, agora pelo menos já temos um pequeno norte de onde iniciamos. Não é exatamente um passo a passo, mas serve como uma luz de farol, a indicar um caminho possível.

Mas e se aparecer algum caso, em que eu não saiba como trabalhar? Aí, cara(o) colega, você fará aquilo que independente do nicho em que atue, espera-se que faça: busque mais embasamento teórico, faça supervisão, troque figurinhas com outros profissionais que atuem na mesma área, enfim, não se acomode, e corra atrás do conhecimento necessário. Até porque, você não saiu da graduação sabendo tudo, e o mais comum, é ter que correr atrás de novos conhecimentos. Tenha sempre a mente e coração abertos para buscar mais aprendizado sempre que possível.

E para finalizar, vamos lembrar de um detalhe? Aqui eu me referi apenas aos colegas psicólogos que atuam em consultório, mais especificamente com psicoterapia, no entanto, ainda teremos muito o que falar sobre palestras, workshops, rodas de conversa, grupos de gestantes, grupos de mães, lives, entre outros serviços que podemos oferecer a este nicho.

Então, este conteúdo foi útil para você? Desejo que sim, e que te traga um pouco mais de confiança e segurança para atuar neste nicho tão incrível. Por mais que eu tenha falado quase que especificamente para mães, lembrem-se, tudo que escrevi aqui, estende-se a parentalidade de uma forma geral, não exclusivamente a maternagem, ok? Um grande agraço!

Autor Ana Paula Majcher

Ana Paula Majcher

@anapm

Ana Paula Majcher é psicóloga com especialização em Terapia Cognitiva e formação em Coaching Psychology pela Academia do Psicólogo. Apaixonada pelo universo da maternagem, atua desde 2011 em atendimentos clínicos, palestras e workshops voltados para pais e educadores. Seu mais novo projeto é o Gestando e Aprendendo.

Oops... Faça login para continuar lendo



Interações
Comentários 1 0