Psicoterapia Psicanalítica x Psicanálise: Qual a diferença, afinal?

Eita perguntinha complicada! Apesar das convicções de alguns profissionais, observamos que muitos de nós não sabemos dizer, ao certo, as exatas diferenças.

Afinal, percebemos que apesar do assunto ser abordado por variados autores, há muitos anos, permanece polêmico. Há quem defenda - veementemente - a ideia de que a psicanálise é mais profunda, e distinta da psicoterapia. No entanto, outros acreditam que ambas se assemelham e conseguem alcançar íntimas mudanças nos sujeitos. De todo modo, existem algumas características que demarcam as duas propostas.

Tentaremos abordá-las de forma simples, mas afirmamos, desde já, que a busca por mais artigos e autores, é fundamental para construir seu próprio entendimento.

Apesar de, inicialmente, Sigmund Freud não ter feito discriminação entre os termos, as particularidades das técnicas convidaram a uma transformação na ideia de que é tudo a mesma coisa. Para o mestre, a psicanálise era entendida como uma psicoterapia. Entretanto, ao longo do tempo, a segunda foi se diferenciando da primeira (através de Jung, Adler, Rank, Reich e teóricos da Psicologia do Ego), enfrentando muitas discussões e resistências.

Inclusive, Zimerman (2004) nos conta que na sua época de formação, pela existência de uma distância imensa entre psicanálise e a psicoterapia, o terapeuta sem formação psicanalítica oficial, não podia “se atrever” a fazer interpretações da transferência. Tal intervenção, era vista como inadequada.

Contudo, hoje em dia, a própria psicanálise vem se adaptando aos movimentos da cultura e, ao contrário de alguns – muitos – anos atrás, o divã e a assiduidade, por exemplo, não mais nos servem como referência para determinar sua configuração. Zimerman (1999) mesmo salienta que, por vezes, um número menor de sessões pode ser mais analítico que a alta frequência.

Na verdade, o termo “análise”, considerando seu sentido, não se limita mais a prática da psicanálise clássica.

Quem recorre a um tratamento, visa o alivio de sintomas, bem como a possibilidade de melhor entender a si mesmo. Na maioria das vezes, a pessoa não chega dizendo: “oi, eu quero conhecer meu inconsciente através da minha transferência, compreender meus chistes e confrontar minhas resistências”. Elas chegam querendo assimilar pensamentos e comportamentos que não lhes fazem sentido e causam muito sofrimento. Buscam uma escuta analítica que tanto o Psicanalista, quanto o Psicoterapeuta Psicanalítico, pode oferecer.

Para as duas perspectivas, sintoma e palavra (a falta dela) andam de mãos dadas.

Na prática, no que se diferem?


É pela possibilidade de falar sobre a dor psicológica que teremos a chance de amenizá-la. Mas claro, expressão não é o suficiente. É através da leitura analítica, feita pelo profissional, e do intercâmbio de perguntas, respostas, silêncios e interpretações que o paciente começa a desenvolver uma percepção sobre sua psiquê.

Produz insights, elabora e pode dar outro destino às emoções, até então, retidas em determinados sintomas e funcionamento.

Em termos práticos, a regularidade das sessões é essencial nas duas modalidades, bem como a neutralidade e a abstinência, por parte do profissional. Dessa forma, paciente e psicanalista, ou psicoterapeuta, podem enxergar o que está para além da fala, esmiuçando o discurso latente de quem busca ajuda.

Zimerman (2004) refere que a psicanálise contemporânea, é, basicamente, voltada para o exercício da dúvida, rompendo com a ideia de um “saber congelado”. A pergunta constante é uma forte aliada no processo terapêutico e esse modelo mais interativo vem, aos poucos, ganhando espaço na psicanálise tradicional.

No modelo clássico psicanalítico (lembrando que muitos terapeutas já não trabalham mais assim), a maioria das interpretações é feita diretamente no reconhecimento da transferência, ou seja, o que o paciente traz é interpretado no aqui agora com a figura do analisa. Na psicoterapia, as interpretações são, muitas vezes, extra-transferencias e a percepção da contratransferência, é de grande importância.

São pequenos detalhes que indicam a singularidade de cada prática.

Podemos pensar que a dificuldade em listar o que é de uma e o que é de outra se dá pelo entendimento do sofrimento alheio (e do nosso próprio), que segue tendo a mesma base, ainda que com diferentes escolas e formações, que assumem multiplos formatos.

Para isso, Virginia Ungar (2001) fala sobre a importância da atitude analítica (que deve estar presente tanto no psicanalista, quanto no psicoterapeuta psicanalítico) referida como a tolerância ao não saber, a capacidade de observação, acolhimento e atenção interessada,  disponibilidade e a disposição à especulação imaginativa.

Mezan (1996), expõe a ideia de que, independente de psicanalise ou psicoterapia psicanalítica, o trabalho clinico deve estar baseado por uma formação extensa e rigorosa, com estudo da teoria psicanalítica, juntamente do tratamento pessoal do profissional, formando os pontos principais para utilizar a sua mente como instrumento de trabalho.

É um tanto desafiador colocar bordas nessa simbiose teórica/técnica e falar claramente sobre tais corpos que se mostram tão interligados. Um deriva do outro e ambos se adaptam ao tempo, a cultura e aos sujeitos.

Possivelmente essa questão perpetuará ao longo dos anos, contudo, não de maneira a limitar cada atividade, ao contrário, aumentando, cada vez mais, o seu alcance.

Antes do nosso até logo, não esqueça de assistir o vídeo que gravamos com a Psicanalista Camila Terra, que é membro do CEP de PA e falamos mais sobre o assunto. Veja o vídeo AQUI!

Agora sim: até logo!


REFERÊNCIAS

MEZAN, Renato. Psicanálise e psicoterapias. Estudos avançados v. 10 n. 27, maio/agosto de 1996, p. 95-108.

UNGAR, V. Actitud analítica: transmisión e interpretación. Conferência proferida na Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre. Março, 2001. 

ZIMERMAN, D. E. (1999). Fundamentos Psicanalíticos: Teoria técnica e Clinica. Uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed.

ZIMERMAN, D. E. (2004). As transformações no perfil do paciente, do Analista e do Processo Analítico: Para onde vai a psicanálise? In:____ Manual de técnica psicanalític: uma re-visão. Porto Alegre: Artmed.

Autor Simples Insight

Simples Insight

@simplesinsight

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