Psicologia Hospitalar e Avaliação Psicológica

Quando dizemos sobre Avaliação Psicológica poucos profissionais pensam no contexto hospitalar. Geralmente quando falamos em Avaliação Psicológica grande parte dos profissionais relaciona à Psicologia Organizacional. É verdade que dentro do contexto organizacional o uso de testes e outros instrumentos são maiores. Há uma valorização da prática dentro das organizações.

Mas, não quer dizer não possam ser utilizados em outros contextos e demandas.

E, é justamente para quebrar esta crença e pensar na Avaliação Psicológica com diferentes possibilidades, que vamos aprender hoje um pouquinho sobre essa prática nos hospitais.

Para começar é importante ressaltar que o trabalho do psicólogo hospitalar, em uma comparação histórica, é uma prática muito recente.

Há pouco tempo não se pensava no bem estar emocional no paciente, sendo uma área totalmente dedicada a médicos e enfermeiros. Por isso, os materiais relacionados estão em construção e constante atualização, sempre adequando não só a conquista de espaço do profissional, mas às diferentes demandas da área.

Uma das atividades do psicólogo hospitalar é levantar o maior número de informações em um curto período de tempo, e por isso, não é possível fazer psicoterapia em pacientes hospitalares. Além do mais, não há estrutura física do espaço, já que muitas vezes são leitos compartilhados.

A prática de Psicoterapia se torna inviável.

Então, como levantar informações de cunho pessoal, emocional e médico, de forma rápida e objetiva?

Com a Avaliação Psicológica.

Este processo na área hospitalar trabalha de forma a levantar informações das condições físicas e emocionais do paciente, no período pré e durante a internação. E, pode ser uma demanda da equipe responsável ou do próprio paciente (se ele tiver lucidez para tal).

Havendo esta solicitação, o psicólogo responsável utilizará das ferramentas que julgar necessário, sendo que, é geralmente iniciado com uma entrevista - ou roteiro, como alguns profissionais da área preferem chamar - semi estruturada que perpassa todo o contexto do paciente.

Antes de conhecer um pouco mais desta entrevista, é importante ter em mente que muitas vezes o que atrapalha o paciente em sua recuperação são fantasias e expectativas, por isso, estas devem ser analisadas com cautela.

Outra característica é o papel da equipe responsável que pode transferir para os pacientes suas emoções e frustrações. Afinal, por mais que sejam pessoas altamente capacitadas, são seres humanos e por isso um trabalho multidisciplinar é o ideal.

O profissional responsável pela avaliação, deve estar atento a todas as interferências que pode acontecer. E por se tratar de um ambiente hospitalar, ser flexível e saber ultrapassar possíveis obstáculos que possam surgir, não só com relação ao espaço físico, mas também no processo.

Isto porque o hospital não é um local ideal, então é necessário fazer adaptações (desde que não atrapalhe nenhum procedimento) para ser possível a utilização de outras ferramentas. E no processo é necessário refletir se realmente há a possibilidade do paciente fazer o recomendado.

Por exemplo, é recomendado que o paciente faça psicoterapia. Mas, será que ele tem condições financeiras para isto? Se este morar na zona rural, será que terá condições de ir?

Há recomendações ideais e estas devem ser flexibilizadas para a realidade do paciente.

Com estas possíveis dificuldades em mente é recomendado a entrevista que deve conter vários pontos para avaliar o estado psíquico global do paciente. Sendo que este, já emocionalmente frágil e regredido, deve passar por processos que visem também melhora do mesmo.

Na entrevista deve conter:

  • Identificação: Nome, idade, estado civil, data de internação, médico responsável, diagnóstico médico e outras informações que julgar necessário. É interessante aproveitar este momento e perguntar para saber mais sobre a história de vida do paciente e o que o levou ali.
  • Estado Emocional Geral: Questionar sobre as condições emocionais do paciente de forma geral, desde a situação doença (pré-internação), internação e se houve alguma modificação após internação.
  • Sequelas Emocionais: Possíveis consequências emocionais que o paciente tenha por causa da internação são questionadas aqui. Neste momento é importante não só perguntar, mas observar também as reações do mesmo. Sequelas como, por exemplo, aumento da ansiedade, podem atrapalhar o tratamento e devem ser observadas.
  • Temperamento Emocional Observado: Questionar e observar o humor do paciente com relação ao ambiente, com a situação, com a equipe de saúde responsável e se houve um mínimo de adaptação do mesmo com relação a nova situação.
  • Postura Frente à Doença e à Vida: É possível questionar e observar neste momento se há tendências suicidas no paciente e qual valor o mesmo dá a própria vida.
  • Estado Atual Frente à Hospitalização: A reação do paciente frente à hospitalização e doença. Se há uma negação do mesmo, se este está barganhando sua condição de estar hospitalizado (tenta negociar para sair do ambiente), transmite revolta, aceitação ou até se há ganhos secundários por estar na atual situação.

Aplicação em Casos Práticos


Houve um fato em que na realização de Avaliação Psicológica dentro de um hospital público, havia um paciente que não melhorava. Todo momento em que a equipe médica ia dar alta, o mesmo sentia dor no estômago e por isso era requisitado uma Avaliação Psicológica.

Na avaliação foi percebido que o mesmo tinha ganhos secundários como a atenção da família toda voltada para ele e era isto que o mantinha ali. Porque os exames gástricos tiveram resultados normais, assim, concluiu que estômago era só um reflexo de alguém que não queria perder a atenção que a condição trazia.

Para alguns, principalmente não psicólogos, pode parecer estranho o paciente não querer sair, mas é necessário lidar com todas as possibilidades.

  • Questionário Específico: Entender sobre a história do paciente, e pode ser realizado com ele mesmo ou algum familiar próximo. Não só entender, mas ajudar o paciente ou familiar a entender cronologicamente o que está acontecendo mediante a doença.
  • Avaliação Psicossocial: Esta avaliação procura entender o meio social (grupos e cultura) que o paciente está envolvido, ou já esteve envolvido na infância, adolescência e outras etapas da vida até a atualidade.
  • Exame Psíquico: Recolher informações técnicas do paciente como consciência, pensamento, linguagem, memória e outros fatores voltados para cognição.

Com estas informações em mãos, é papel do profissional mapear, caso necessário, outras ferramentas e instrumentos para levantar informações.

Então, por exemplo, em caso de uso de testes, é necessária uma avaliação da possibilidade do mesmo.

Outro caso prático é de uma criança hospitalizada que deveria passar por uma cirurgia e se sentia extremamente ansiosa e por isso foi recomendada a realização de Avaliação Psicológica. No momento de realização, o profissional responsável percebeu que a criança estava com medo e decidiu submeter à mesma ao HTP (House, tree, person) no qual o examinando deve desenhar uma casa, depois uma árvore e por fim uma pessoa.

Quando o mesmo desenhou a pessoa, e geralmente a pessoa desenha a si mesma, o mesmo fez ao lado uma cama cheia de sangue. Assim a profissional com a informação do teste e algumas perguntas estratégicas, percebeu que a criança estava ansiosa porque tinha visto uma pessoa sair do bloco cirúrgico com um pouco de sangue na roupa.

A partir deste dado foi percebida uma necessidade de acompanhamento breve da criança antes de ir para cirurgia. Afinal, este excesso de ansiedade poderia atrapalhar sua melhora.

Mas, isto só foi possível porque havia condições físicas para a submissão do teste, e porque a criança tinha condições físicas e emocionais para realização do mesmo.

Este é um exemplo de utilização da Avaliação Psicológica. Que nem sempre demanda o uso de testes.

Mas, percebem como é possível a realização de Avaliação Psicológica em diferentes contextos?

Espero que tenham gostado destas informações, e dúvidas, comentários e sugestões estou à disposição.

Autor Tássia Garcia

Tássia Garcia

@tassiagarcia

Eu sou Tássia Garcia, psicóloga por formação e empreendedora por vocação. Aprendi estudando, errando e praticando que ser Psicóloga é muito mais que eu aprendi na graduação. Atualmente utilizo meus conhecimentos em avaliação psicológica, inovação profissional e a experiência como coach e consultora para auxiliar outros profissionais a se posicionarem no mercado, construir estratégias de marketing e terem maior reconhecimento.

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