Os primeiros contatos com pacientes em Psicoterapia Psicanalítica

O processo de procura de um psicoterapeuta passa não só pela indicação do nome do profissional, mas, também, como ele trabalha, a linha teórica que segue e pessoas conhecidas que já se trataram com ele.

Frequentemente, quem busca tratamento espontaneamente tem o ímpeto de ir atrás destas informações para, aí então, estabelecer o primeiro contato com o profissional.

O primeiro contato


Quando falamos em primeiro contato com o paciente, é comum que seja imaginada a primeira entrevista, já com o futuro paciente a nossa frente no consultório. Entretanto, o primeiro contato que temos, na maioria das vezes, inicia no encaminhamento feito à nós.

Assim, a importância da rede de encaminhamentos se faz fundamental em nossa prática, pois as pessoas que nos encaminham pacientes, comumente são pessoas próximas e/ou amigas que conhecem e confiam no nosso jeito de trabalhar e, a partir dali, se inicia a (pré)transferência que ajudará no restante do tratamento deste paciente.

Existem pessoas que solicitam indicação de profissionais e que, mesmo com esta em mãos, apresentam dificuldade na busca de tratamento. Podem demorar bastante até se sentirem prontos e seguros de sua decisão. Também existem os casos em que o paciente agenda o primeiro horário e não consegue comparecer.

Se o paciente não busca entrar em contato com o terapeuta, é indicado que o profissional possa fazer este contato, para entender o motivo da falta e oferecer um novo horário, a fim de que possam se encontrar e conversar.

Desta forma, a resistência ou até mesmo a falta de motivação ao início de um processo terapêutico, fica aparente.

Em muitos casos o paciente entra em contato através de uma ligação telefônica, ou melhor, nos dias atuais, é bastante comum o uso de envio de mensagens por aplicativos como whatsapp.

Neste momento, podemos começar a perceber características daquela pessoa pelo tom de voz alto ou baixo, o jeito que ela se expressa, se é mais formal ou faz uso de gírias, se é sucinta em suas informações ou detalha motivos de sua busca por ajuda já neste primeiro momento.

A Entrevista Inicial


A entrevista inicial, como é chamado costumeiramente este primeiro contato, não significa que precise ser somente uma sessão com a pessoa que busca ajuda, e sim um momento em que são avaliadas as condições desta em começar uma psicoterapia. A entrevista inicial caracteriza-se por uma avaliação, feita em algumas sessões para conhecer melhor aquele possível paciente, a fim de que ambos possam decidir se querem trabalhar juntos.

Portanto, não é só o paciente que decide se tratar com aquele profissional, mas também o terapeuta deve ter o desejo de ajudar aquela pessoa e perceber – dentro de suas limitações – se ele se sente confortável para toma-lo em tratamento. Zimerman (2004) entende a entrevista inicial como o momento de avaliação, chamando de primeira sessão o encontro após a dupla firmar o contrato terapêutico.

Os primeiros contatos com o paciente buscam clarear os motivos – conscientes e inconscientes – pelos quais fizeram esta pessoa procurar um psicólogo (psicoterapeuta).

Todavia, é necessário que o terapeuta esteja atento à motivação do paciente em se tratar:

  • seja ela manifesta (consciente) ou latente (inconsciente);
  • se esta pessoa demonstra sofrimento psíquico ou tem algum interesse nesta busca, para fins não-terapêuticos (como por exemplo um laudo);
  • se buscou ajuda sozinho e de forma espontânea ou foi por algum motivo maior como obrigação judicial ou por algum familiar colocar como condição o tratamento – por exemplo, uma esposa que encaminha o marido para tratamento, caso contrário haverá separação conjugal.

Não raro, pessoas buscam ajuda para melhorar em algum aspecto que incomoda, porém, não apresentam o desejo genuíno em seguir um tratamento psicanalítico e todas as implicações que estão neste processo.

Contudo, também deve ser salientado que, mesmo por razões que não sejam terapêuticas, se houve a procura por um profissional e a pessoa chegou até a sessão, é porque algo ecoou dentro do paciente e fez sentido a ideia de tratamento.

Assim, cabe ao profissional, ao longo deste período trabalhar a motivação para a psicoterapia.

O paciente do jeito que ele chega


Nestes primeiros encontros é importante que o terapeuta possa perceber o paciente do jeito que ele chega. Desta forma, a nossa atenção deve estar, entre outros aspectos, em se ele apresenta algum sintoma aparente ou nos conta sobre ele, se fala de fantasias em relação ao tratamento e a facilidade ou dificuldade em nos procurar.

Também em sua postura ao se apresentar:

  • se é de forma mais extrovertida e bastante falante ou mais tímida com dificuldades em falar sobre si;
  • novamente o tom de voz e a linguagem utilizada;
  • se costuma fazer gestos e muitas expressões ou não;
  • para o modo com que a pessoa se veste com relação à sua idade, se está de acordo com o clima do dia (calor/frio), se usa tons de roupa mais quentes e alegres ou tons mais frios;
  • se utiliza poucos/nenhum ou muitos acessórios.

Obviamente, o propósito dessas observações não é formar um julgamento ou um estereótipo e sim, perceber aspectos que nos falam sobre a pessoa diante de nós, além do conteúdo explícito de suas palavras.

Há aqueles que elogiam o terapeuta e o consultório logo de início e buscam de alguma forma se aproximar do profissional, mesmo conhecendo-o há tão pouco tempo. Há pacientes que se preocupam em olhar as horas, preocupados com o tempo, se realmente vão conseguir expor tudo em uma sessão, apresentando ansiedade, assim como há aqueles que fazem muito silêncio e pouco conseguem nos apresentar os indicativos para buscarem ajuda.

Ou seja, tudo o que acontecer neste encontro (e nos próximos do período de avaliação) trazem características daquela pessoa que são transmitidas quando entramos em contato com ela.

Em muitos casos, sem que a pessoa nos diga nada, temos impressões referentes a ela. Algumas acabam se confirmando depois, quando conhecemos melhor o paciente. No entanto, também, pode ocorrer de a pessoa se apresentar de um jeito diferente do habitual, imaginando que precisa ser assim (por algum traço de personalidade) ou até mesmo para agradar o terapeuta e este aceitá-lo como paciente.

Um ponto importante a ser percebido são os assuntos trazidos neste primeiro momento e sobre quais áreas da vida o paciente aborda e, também, sobre quais áreas ele não nos relata.

Um momento único


Independente do jeito que o paciente chega em nosso consultório, em casos em que se faz psicoterapia de orientação analítica, é de extrema importância que deixemos o paciente livre para trazer os assuntos que desejar para percebermos o pensamento do paciente, seu funcionamento, motivos de (realmente) estar ali. Mas, também, em alguns momentos o psicoterapeuta fará perguntas a fim de ampliar/entender o que está sendo abordado.

Etchegoyen (2008) traz a ideia de que no momento da entrevista a regra fundamental da psicanálise, a associação livre, não é realizada. Ela só entra em jogo quando se está sem tratamento propriamente dito. Em alguns casos, cabe se fazer interpretações, no entanto, não é o mais usual. Atualmente são casos mais especiais em que isso acontece.

Em geral, costuma-se fazer colocações de ordem mais compreensivas, para que o paciente se sinta entendido e saia da sessão com a sensação de que ali sim existe algo e alguém que poderá auxiliá-lo. 

Assim, no primeiro contato deixa-se o paciente livre para trazer o que tiver vontade e perguntas são feitas pelo profissional para começar a conhecer melhor a pessoa que está a nossa frente. Em terapia psicanalítica, estas perguntas não são feitas de forma diretiva e sim, de maneira que possam abrir espaço para o paciente trazer outros assuntos e/ou clarear o que está sendo comentado.

As características que o paciente nos mostra, ou também, que ele demonstra em ações, nos despertam sentimentos. O terapeuta precisa notar o que a pessoa despertou nele: se foi empatia ou rechaço, vontade de conhecê-la melhor ou de nem atendê-la. Tudo isso são informações importantes que a pessoa que busca ajuda transmite neste momento inicial de avaliação e indicam o funcionamento do mesmo.

Alguns teóricos apresentam o pensamento de que, se o paciente senta na poltrona do terapeuta, representa onipotência e isto é passível de interpretação já no início destes encontros. Entretanto, outros teóricos vão apresentar o local adequado onde o paciente deve se sentar, demonstrando já de início a assimetria que existe nesta relação.

Outro aspecto importante de se identificar nos primeiros encontros é se esta pessoa que busca ajuda já passou por algum tratamento anterior. Além de saber como foi este processo, é importante ter conhecimento de como foi o término do tratamento, se o paciente saiu por alta combinada ou interrupção e, se for este último caso, quais os motivos da saída antecipada do tratamento.

O trailer de um filme


Zimerman (2004) apresenta a ideia da entrevista inicial como o trailer de um filme, ou seja, tudo o que acontece neste primeiro encontro, tudo o que é falado, abordado de alguma forma, representa o que vai acontecer no campo analítico ao longo do processo de psicoterapia. Neste caso são os aspectos que serão abordados durante o tratamento condensados em uma sessão.

Não menos importante, são os critérios de diagnóstico e prognóstico deste paciente. Para isso, o terapeuta necessitará de entendimento psicodinâmico para entender o paciente e seu funcionamento, assim como o vislumbre de quanto e em quais aspectos o paciente pode melhorar com o atendimento.

No primeiro contato é esperado que o paciente faça perguntas referentes ao processo, como funciona o tratamento e que tire as dúvidas que tem. Estas dúvidas devem ser respondidas, pois fazem parte deste momento, afinal o paciente está entrando em contato com algo novo em sua vida e não tem obrigação de saber como se dá o processo terapêutico. Isto não quer dizer que, após respondidas as perguntas, não se deva analisar tudo o que foi questionado, inclusive se aparecem perguntas referentes a pessoa do terapeuta.

Em relação a dinâmica de sessões, não são recomendadas sessões muito espaçadas neste momento inicial. Quanto mais perto um encontro do outro, maior encadeamento das ideias que o paciente e o terapeuta terão, oportunizando o estabelecimento de vínculo entre a dupla.

Referências

Etchegoyen, R. Horacio. Fundamentos da técnica psicanalítica. 2º ed. 2002. Artmed

Keidann, Carmem Emilia; Dal Zot, Jussara Schestatsky. Avaliação. Psicoterapia de orientação analítica – fundamentos teóricos e clínicos. Org: Eizirik, Claudio L.; Aguiar, Rogerio W.; Schestatsky, Sidnei S. 2º ed. 2008. Artmed.

Zimerman, David E. Manual de técnica psicanalítica uma revisão. 2008. Artmed.

Autor Simples Insight

Simples Insight

@simplesinsight

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