Lá e de volta outra vez: um retorno rápido à faculdade

Psicólogo, responda a essas duas perguntas:

  1. Como você se sentiu quando ENTROU para faculdade de Psicologia?
  2. Como você se sentiu quando SE FORMOU na faculdade de Psicologia?

Provavelmente foram momentos que misturaram alegria, empolgação, dúvida, frustração.

Falo isso com conhecimento de causa, pois, um dia, eu também fui um estudante universitário. Passar no curso pretendido foi fantástico, mas sair para o mercado de trabalho... aí foi complicado!

Não vou me aprofundar aqui falando sobre as oportunidades profissionais e demais qualificações necessárias. Quero, apenas, delimitar uma questão importantíssima: a aplicação, na vida real, de uma determinada “linha” de atendimento ou teoria de algum grande teórico.

Sim, pois quando saí da faculdade, havia um encantamento sobre a teoria do amadurecimento emocional desenvolvida por Winnicott; contudo, quem disse que eu consegui aplicar isso, assim... logo de cara?

O mundo corporativo me aguardava de braços abertos. E mesmo que a minha jornada dupla – da empresa para o consultório – me permitisse o contato com a Psicologia pura, aquela “pincelada” sobre o conteúdo do simpático senhorzinho inglês, havia muito, estava distante da minha realidade.

Por mais que a “Mãe suficientemente boa” e demais conceitos fossem apaixonantes, apenas 3 meses de teoria + 1 ano de estágio foram o máximo que eu tive sobre Winnicott durante a formação. Uma “gota d’água”, se comparado ao “oceano” de contribuições desenvolvidas por ele, para Psicanálise/Psicologia.

Por esse motivo, eu convido você: estudante, psicólogo recém-formado e profissional experiente, a voltar no tempo e regressar à ”faculdade”, relembrar seu momento de estudante, e aprofundar seu conhecimento sobre a teoria de Mr. Donald Woods Winnicott.

Mas é claro, faço esse convite ao concluir que, se você chegou até aqui, no “Espaço do Winnicott”, é porque tem algum interesse sobre ele –  tal qual eu tinha após me formar – e que gostaria de incorporá-lo ao seu dia a dia de trabalho.

Bora lá!

Influências na vida


Não há como separar a vida pessoal da vida profissional. É uma coisa só. Não é à toa, as nossas experiências passadas, da infância, por exemplo, tornam-se grandes estímulos para decisões futuras.

Elizabeth Martha Woods Winnicott e John Frederick Winnicott, foram mãe e pai de Donald. Nascido no ano de 1896 em Plymouth, cidade do condado de Devon, Inglaterra, Winnicott conviveu com as tendências depressivas de sua mãe. Teve, em seu pai, um comerciante e empreendedor, influências positivas quanto ao pensamento livre e a capacidade criativa, ainda que só da parte dele, houvesse o desejo de ver o filho seguir seus passos no comércio.

O autoconhecimento a respeito de situações conflitantes e que marcaram sua vida com sua família, foi fundamental para sua formação como médico pediatra, e após conhecer James Strachey e Melanie Klein, como psicanalista.

Fica dica!

Essa foi uma super resumida sobre a infância de Winnicott. Não caberia aqui relatar esse período por completo, do contrário, esse artigo se tornaria extremamente longo. Para mais informações, confira o site do squiggle-foundation. Recomendo também o livro “Winnicott”, de Adam Phillips, que avança um pouco no pensamento e na prática da clínica desse querido psicanalista.

Winnicott ressignificou a Psicanálise.

Ele não deixou de considerar as propostas freudianas para as neuroses e de relacionamento entre o psicoterapeuta e paciente – fundamental para o tratamento. Porém, saiu de um formato mais “fechado”, de uma metapsicologia focada nos processos mentais e funcionamento do aparelho psíquico, para a experiência do ser humano.

Para ele, saúde não se caracterizava pelas relações entre EGO, ID e SUPEREGO. Ser uma pessoa saudável representava relacionar-se, cada vez mais, com a sua própria essência... viver bem a própria vida, basicamente.

Aos psicanalistas mais fervorosos, afirmo que sou fã do barbudinho e nem por 1 minuto desmereço sua obra. Além disso, sabemos que o trabalho de Freud também consistiu em rever as suas próprias criações.

O que chama muito atenção sobre a obra de Winnicott, é a proximidade com a Filosofia, em especial, o Existencialismo. No livro “Natureza Humana”, ele destaca o estudo do desenvolvimento emocional como beneficiado pela Filosofia. Um pensamento que, ao longo dos séculos, segue buscando um melhor enten­dimento sobre a natureza humana.

As ideias de Winnicott se aproximavam das de Heidegger. Não apenas por ele ser um filosofo existencialista e discordar, em partes, da Psicanálise de Freud, mas por que suas construções se conectam a uma ciência da natureza, direcionada para a existência do ser humano e o sentido que o tempo tem no desenvolvimento de cada um.

É mais ou menos assim:

Para Winnicott, um aspecto importante para o desenvolvimento humano é a não-existência, pois só existimos, a partir do nada (acho que fui um pouco dramático. Mas tudo bem, já vou dar um exemplo bem prático. Antes, deixe-me apenas falar sobre Heidegger).

Para ele, “ser” é muito mais do que as selfies nas redes sociais (calma, essas são palavras minhas, mas que captam a essência do que ele quis dizer). O ser humano é resultado da possibilidade ou impossibilidade de existir no mundo. “Ser” representa “presença”, e a simples possibilidade da “ausência” dá sentido as coisas; faz o mundo girar.

Fica dica!

Se quiser saber mais, leia Heidegger no livro “Ser e o Tempo”.

Bom, um exemplo bem simples sobre todo esse “filosofês”, é o legado que você e seus pacientes querem deixar no mundo (psicólogo também é uma pessoa).

Sim, isso mesmo!

Com o passar do tempo, é natural que surjam questões sobre o que foi ou será feito da vida. Quanto mais velho, mais as pessoas se aproximam da morte. E a simples possibilidade de passar por esse mundo “em branco”, faz com elas criem e saiam do mundo comum; que aceitem o chamado para a aventura –  já diria Campbell em “A Jornada do Herói”.

Ação! Essa é a palavra.

Quanto mais você faz, mais você existe. Quanto mais o tempo passa, mais você tem a possiblidade produzir, criar, empreender, deixar o seu legado para àqueles que virão.

Aquiles, herói e grande guerreiro retratado pela mitologia grega, não tinha medo da morte, mas, de NÃO SER LEMBRADO.

Alguma correlação com a “marca” que as pessoas querem deixar nesse mundo, hã?

SACOU?

Como eu descrevi lá em cima, ser saudável é: “conectar-se à sua própria essência”. Esse movimento é parte de algo maior. Envolve o seu, o meu, o nosso desenvolvimento emocional também; nossas experiências nesse caminho subjetivo e por vezes, incompreendido, mas de grande importância para encontrarmos mais... vitalidade na vida.

Desenvolvimento emocional primitivo


Chegamos ao desenvolvimento.

Partindo dessa discussão sobre “ser” e “existir”, eu pergunto: e o bebê?

Do ponto de vista físico, é obvio que ele existe. Ele tem olhinhos, boquinha, bochechinhas, perninhas, bracinhos. Mas, será que ele sabe que tem tudo isso, quero dizer... será que ele sabe que existe?

Como são as experiências de vida do bebê e o que acontece ao seu redor? Será que o ambiente exerce alguma influência sobre ele?

Reflita por 5 segundos.

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Segundo Winnicott, ao falar sobre o desenvolvimento emocional, ele afirma que o bebê não é autossuficiente (ok, isso já sabemos). Para essa criaturinha, a existência está diretamente ligada à sua relação com o ambiente.

Mas quem é esse tal de “ambiente”?

Ora, é a mãe!

Pelo menos, toda pessoa capaz de cuidar e prover condições necessárias para que a criança cresça, desenvolvendo-se de maneira integrada. Veja: mãe biológica, mãe adotiva, pai, irmã, irmão, avó, tia, tio, cuidadora – em caso de instituições para adoção.

Mas, e o pai? Ele pode fazer esse papel de “mãe” também?

Mas é claro! Não sou mineiro, mas aqui caberia um “UAI, SÔ? ”.

Se pensarmos nos papeis clássicos atribuídos às mamães e papais, é a mulher quem dá à luz e cuida, enquanto o pai tem um papel que oferece autonomia e independência durante a triangulação edipiana, já diria Freud. Mas, simbolicamente, todos nós (homens e mulheres), podemos assumir papeis e funções.

Aqui, nesse parágrafo, vou falar diretamente para você, menino psicólogo. No “setting” terapêutico, ao estabelecer o “holding”, você assume o papel de “mãe suficientemente boa”, proporcionando a “ilusão” e “desilusão” graduais ao seu paciente – falarei mais sobre esses conceitos no vídeo “De volta para o primitivo”, na sequência desse artigo.

Bom, considere que a saúde mental e emocional de seus pacientes é uma condição que tem início nos primórdios da infância. Não me refiro aqui ao bebê recém-nascido especificamente, mas aos eventos anteriores: concepção, fase embrionária e fetal:

Fica dica!

Conceber não diz respeito apenas ao sexo. Este ato refere-se também à idealização das pessoas em se tornarem mamães e papais. Por isso a importância de investigar, durante a anamnese, situações e sentimentos ocorridos nessa fase, que podem ir desde as brincadeiras infantis, com as bonecas, até os planos no namoro, noivado, quando o casal decide morar junto e até mesmo, casar (não necessariamente nessa ordem).

Se tudo correr bem, o bebê começará a criar um mundo particular. Esse local é um “espaço intermediário” entre o mundo externo (mãe, pai, irmãos) e o interno (bebê). Um local que permitirá a ele viver experiências subjetivas de maneira criativa.

Primeiro ele irá ter noção do próprio corpo; em seguida, perceberá que existe um mundo externo; para depois, interagir com esse mundo e viver sentimentos de amor e ódio.

Todas essas etapas são saudáveis para que o bebê se desenvolva.

Vou relatar, brevemente, um caso que atendi. Assim, aproveito para deixar a coisa mais prática e sair um pouco do “psicologuês”.

Caso


Há alguns anos, cuidei de um garotinho. Vou chama-lo de “Herói”, pois, em quase 100% das brincadeiras que fizemos, era assim que ele chamava a si próprio.

Herói tinha 7 anos. Vivia com seus avós. Seus pais eram separados. Sua mãe, recentemente tivera um segundo filho com outro homem. Diante dessas situações, Herói, de maneira lúdica, sempre reconstituía momentos de sua vida com seus pais. O “salvamento” era a principal temática.

Eu o acompanhei por 1 ano. Nesse período, vi uma criança introvertida usar o melhor desse perfil para criar. A cada salvamento, mais forte ele ficava; mais herói ele se tornava; e mais consciência de suas fraquezas ele tinha.

Eu sempre deixava claro para ele que não era possível mudar e salvar a todos, mas, que tínhamos também o grande PODER de fazer escolhas e nos responsabilizarmos por ela.

É como diz o Tio Ben (Homem Aranha): “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”.

Herói passou a ter noção de quem era. Demonstrava compreender seu papel de filho, e não somente o de “homem da casa”, atribuído a ele por sua mãe.

Ele não era pai, não era adulto, não era chefe de família. Era apenas uma criança “solta no ar” e que pouco sabia sobre seus sentimentos, emoções, inteligência e por aí vai. Era como se não tivesse noção de si próprio em relação ao mundo.

Para compreender isso, ela precisou ressignificar sua relação com seus familiares. Em muitos jogos e brincadeiras, ele foi pai de seus próprios pais. De maneira criativa, construía situações de morte e vida, desintegração e integração, separação e união.

O ódio existia, mas sua variação também: o amor.

Observei e conclui que alguma coisa muito boa fora feita com ele – provavelmente pelos avós – pois a sua empatia para com sua mãe era extrema. Mesmo vivendo relações conflitantes, ele a acolhia em todas as brincadeiras: cuidava, orientava e sim, a amava.

Não pude prosseguir com ele, mas esse rapazinho, em pouco tempo transformou-se em uma criança alegre e mais segura de compartilhar suas produções: desenhos, ideias, brincadeiras, gestos, pum, arroto, xixi, cocô.

Mas se os avós fizeram coisas muito boas por ele, e o meu trabalho como psicólogo?

Foi ótimo e eu curti muito. Me diverti pra caramba com o garoto. Aprendi bastante também.

O fato é que a psicoterapia não consiste em grandes interpretações. Ao fazer isso, corremos um grande risco de fazer análise pela análise. Isso é bom, mas sabe... eu aprendi que estar presente também funciona, mesmo que para isso eu não precisasse dizer uma única palavra.

Meu comportamento o estimulava a agir, a ser o filho e não mais o homem da casa – tão pouco o herói – e a existir diante das criações individuais, que ganhavam o mundo com mais força.

Como dito antes, a presença significa “ser”. Naquele ambiente terapêutico, ora eu era mãe, pai, avó, avô, brinquedo, irmão, inimigo... e psicólogo. O meu papel era auxiliar (ego auxiliar) naquilo que ela não tinha: silêncio, espaço, privacidade, fosse o que ele mais precisasse para “ser” e “existir” no mundo.

Sabe o que é mais curioso?

É que quando as pessoas crescem, levam consigo aquela criança. Uma representação simbólica, é claro; porém, isso não quer dizer que todos têm sabem de que ela está lá, e de que podem acessá-la a qualquer momento.

O mundo se torna mais concreto e racional com a entrada na adolescência e vida adulta. E mesmo grande, já HOMEM e MULHER, ainda é possível regredir e voltar a ser criança.

... se eu quero dizer que a clínica winnicottiana também funciona para adultos?

Bom, essa pergunta eu deixo para que você responda e compartilhe aqui, nos comentários.

Vamos trocando ideias. Sem dúvida, isso será fundamental para o nosso aprendizado (eu também me incluo nessa).

Recapitulando


  • Nesse artigo, você conheceu um pouco mais sobre a vida de Winnicott;
  • Compreendeu quais foram suas influências pautadas pela Psicanálise e Filosofia Existencialista;
  • Identificou importantes conceitos sobre a existência do “EU” – ou das pessoas no mundo;
  • Entendeu o significado do desenvolvimento emocional primitivo; e
  • Conferiu um exemplo de um caso real, onde uma criança viveu processos criativos para ressignificar o relacionamento e a separação de seus pais.

Winnicott nos deixou em 1971. Partiu cedo, aos 65 anos; contudo, seu legado é considerado inovador. É, sem dúvida alguma, uma das mais importantes contribuições para Psicanálise e para Psicologia.

É isso aí!

Fique ligado, que muito mais conteúdos e interações vão rolar por aqui.

Um abração para você, e até a próxima.

Autor Rodrigo Moreira

Rodrigo Moreira

@rodrigomoreira1009

Rodrigo Moreira é psicólogo e especialista em gestão de pessoas. Como consultor, tem sólida carreira desenvolvida em grandes consultorias de educação corporativa. É escritor, tendo lançado seu primeiro livro Ele não é isso pela Editora Arwen; e futuro psicanalista winnicottiano. Em seu “lado B”, é nerd, fã de Senhor dos Anéis e Star Wars. Tem, até hoje, seu quartel general, veículos e action figures dos G.I. Joe (Comandos em Ação).

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