Afinal, o que é terapia de casal?

A terapia de casal é uma terapia em grupo, em que ambos vão expor as suas questões individuais? Ou é uma terapia individual com a presença de um observador? Ou é um aconselhamento, onde o terapeuta dirá o que o casal deve fazer?

Afinal, o que é terapia de casal?


“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida." - Vinícius de Moraes

Terapia de casal não é a terapia dos indivíduos que compõem o casal, como uma terapia em grupo, nem uma terapia individual na presença do seu parceiro(a) e nem tampouco um aconselhamento.

A terapia de casal trabalha a relação. Tudo aquilo que a afeta pode virar demanda de terapia.

É uma intervenc?a?o na relac?a?o do casal com a presenc?a de ambos que, ao mesmo tempo que constroem a relação, também são construídos por ela, sendo criadores e criaturas.

Questões individuais como um problema no trabalho, por exemplo, deve ser tratado na terapia individual. Claro que se a questão individual está afetando o casamento, isso deve ser trabalhado, mas deve-se recortar apenas a parte da questão que afeta o relacionamento.

As indicações mais comuns para a terapia remetem a situações nas quais as pessoas colocam a relação ou o parceiro como o foco de seus sofrimentos.

Normalmente, essas queixas revelam sintomas significativos, como uma traição ou um problema sexual; ou um relacionamento repleto de conflitos; ou uma dependência simbiótica entre o casal. Portanto, caso você tenha um cliente com essas queixas, talvez fosse interessante propor uma terapia de casal em conjunto com a individual.

No caso da terapia individual, um limite e, consequentemente uma possível dificuldade em melhorar a relação, se daria, pois “o outro pode, sem querer, continuar a reforc?ar a construc?a?o que o terapeuta tenta tornar menos ri?gida” (ELKAI?M, 2008, p. 105).

Qual o objetivo da terapia de casal?


O objetivo principal é a mudança na interação entre o casal, promovendo melhor qualidade de vida para os indivíduos e uma relação mais saudável e adequada.

O terapeuta ajuda o casal a avaliar os seus modelos de construção e funcionamento do mundo e de si mesmo, através de uma comunicação clara e aberta.

Assim, o terapeuta terá o papel de ajudar na co-construção, junto com o casal, de novas possibilidades de relacionamento.

Além disso, também é importante visitar o passado desses indivíduos, já que as suas experiências anteriores certamente influenciam na relação. Deve-se verificar qual é a bagagem que essas pessoas trazem da infância e dos seus relacionamentos anteriores. Isso faz com que o terapeuta entenda como se deu a construção de mundo e de padrões de relacionamento para o casal.

Por isso, é essencial estudar a articulação entre o indivíduo e sua família de origem. Ao conhecer o passado também é possível conhecer os padrões de relacionamento do casal, que podem ser uma repetição dos padrões de sua família – como seus pais se relacionavam entre si e com os filhos, por exemplo. Podem ser positivos e saudáveis ou negativos e patológicos.

Na terapia de casal, "torna-se possi?vel perceber as semelhanc?as e diferenc?as existentes entre os sistemas familiares de origem dos membros do casal e da fami?lia por eles formada. Para que haja mudanc?a e? fundamental que os membros do casal examinem se esta?o presos a algum co?digo de lealdade de suas fami?lias de origem e que movimento permitira? encontrar uma porta de sai?da legitimada pelos autores da histo?ria da qual fazem parte" (MATTOS, 2006, p.85).

Após se dar conta dessa influência transgeracional, o casal tem a possibilidade de construir uma relação mais saudável.

Então, terapia de casal é uma possibilidade de ajudar a construir novas formas de relacionamento entre o casal para que este possa redescobrir maneiras de viver em harmonia e com prazer.

Se o casal se separar, significa que a terapia fracassou?


Muitos casais já chegaram ao meu consultório com a crença de que “todo mundo que faz terapia de casal se separa”. Acredito que talvez isso aconteça porque as pessoas não sabem de fato o que é uma terapia de casal e possuem a ideia irreal de que o terapeuta irá, magicamente, solucionar todos os seus problemas - mas isso é papo para uma outra conversa, então voltemos ao tema.

Na verdade, durante o processo terapêutico, alguns casais realmente se separam mas, outros se mantém juntos.

Se o objetivo da terapia fosse sempre a manutenção do casamento, como ficariam aquelas pessoas que buscam ajuda para terminar o relacionamento da melhor forma possível ou que buscam ajuda para decidir se querem ou não manter a relação? Se fosse assim, elas não poderiam se beneficiar da terapia.

Segundo Feres-Carneiro (1994, p. 37), "o compromisso da terapia é com a promoção da saúde emocional dos membros do casal e não com a manutenção ou a ruptura do casamento”.

Existem 4 possibilidades em um relacionamento:

  • Viver bem, juntos
  • Viver bem, separados
  • Viver mal, juntos
  • Viver mal, separados

Normalmente, quando o casal chega a terapia, se encontra funcionando no circuito negativo, em uma das duas alternativas de viver mal. Ou seja, ele está vivendo mal junto ou separado.

Infelizmente ainda não há a cultura de procurar um psicólogo mesmo quando tudo vai bem, para manter o relacionamento saudável.

Entretanto, nem todos os casais que buscam a terapia ainda estão juntos. Muitos já estão separados, mas estão mal e gostariam de tentar retomar o relacionamento. Pela minha prática, poucos são os casais que estão separados e querem ajuda para permanecer separados de uma forma mais saudável.

A maioria busca a terapia com o objetivo de melhorar o relacionamento e permanecer junto, mas enxerga que a separação é uma possibilidade real.

Além disso, alguns chegam com dúvidas se desejam ou não permanecer no seu relacionamento e buscam a terapia como uma ajuda para tomar essa decisão.

E não é tão incomum um dos membros do casal querer continuar o casamento e o outro querer terminar. Nesse caso, o objetivo da terapia é que eles decidam o que querem fazer e como passar por esse processo da melhor maneira possível.

Mesmo que o casal inicie o processo terapêutico com um objetivo, nada impede que, durante o caminho, o casal mude de ideia. Ou seja, se objetivo inicial era permanecer casado, pode ser que acabem decidindo se separar ou vice-versa.

Por isso, o sucesso da terapia de casal não é medido pela manutenção e continuidade do casamento, ao contrário do que muitos pensam.

Se o casal conseguiu vislumbrar as suas possibilidades, tomar a sua decisão e passar pelo processo (de manutenção ou de separação) da melhor forma possível, então considero que a terapia cumpriu todos os seus objetivos.

Portanto, se o casal se separar, não significa que a terapia não funcionou e sim que o casal estava comprometido com a saúde dos membros do casal ao invés da manutenção do relacionamento a todo custo.

O grande objetivo é ajudar o casal a viver no circuito positivo, ou seja viver bem, independente de junto ou separado.


 

Veja as referências do artigo:

ELKAÏM, M. Como Sobreviver à Própria Família. São Paulo: Integrare, 2008.

FERES-CARNEIRO, Terezinha. Terapia de casal: ruptura ou manutenção do casamento?. Temas psicol.,  Ribeirão Preto ,  v. 2, n. 2, p. 37-52, ago.  1994 .   Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X1994000200005&lng=pt&nrm=iso

MATTOS, E.B. Crise conjugal: furtando-se a olhar mais de perto. In: COLOMBO, S.F. Gritos e Sussurros: Interseções e ressonâncias, trabalhando com casais. Volume II. São Paulo: Vetor, 2006. P. 71-86.

Autor Renata Azevedo

Renata Azevedo

@renataazevedo

Renata de Azevedo é psicóloga, especialista em Terapia de Família e Casal, pela UFRJ. Possui formação em Análise Transacional e é coautora do livro “A Arte da Guerra”, da ed. SerMais. Acredita no amor e nos relacionamentos duradouros, saudáveis e felizes. Ama ajudar as pessoas a melhorarem os seus relacionamentos. Antigamente, detestava falar em público, mas hoje é uma das coisas que mais gosta de fazer.

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