A Psicologia e o medo da Espontaneidade

Inicio com o pensamento de Moreno registrado em sua obra As palavras do Pai que diz: “Deus é espontaneidade. Daí o mandamento: Sê espontâneo!”

A Saúde da Alma nunca foi tão presente e necessária como o momento em que vive a humanidade. Nos tempos de grande sofrimento e adoecimentos diversos, somando corpo e mente, as resultantes são catastróficas, porém transformadoras. Mas como pensar assim? Pois é exatamente frente às adversidades que por (muitas) vezes não são previstas, nossas réplicas se tornam em atos de surpresas constantes para nos remeter à ação de respostas coerentes para a manutenção das nossas saúdes. A essa capacidade damos o nome de ESPONTANEIDADE!

Quanto a isso, é importante frisar que o campo da Psicologia, como qualquer outro, tem sido exigido a manifestar suas posturas e contribuições perante a sociedade e também ao mercado.

Mas, estamos realmente prontos para fazer frente aos desafios de nossa época?

A resposta óbvia deveria ser um retumbante SIM! Afinal, desde a passagem na Faculdade até a construção de carreira somos postos continuamente diante dos conflitos e dificuldades que o dia a dia proporciona; tanto os nossos quanto os de nossos clientes e o próprio exercício da psicologia enquanto ciência e profissão.

Mas, infelizmente, a realidade que encontramos é bem diferente: na formação temos estudantes frágeis, professores inadequados, grades curriculares desorganizadas; já em campo vê-se um grande número de profissionais perdidos e fazedores de curso (muitas vezes na tentativa de se encontrar, outras somente de status). Assim sendo, descrevo melhor cada encontro citado.

O repasse dos conhecimentos que compõe a Psicologia, com conjunturas questionáveis e repletas de fragilidades de ensino, chega ao estudante como um turbilhão de saberes que saem da plenitude para segregações das disciplinas. O aprendiz que, por vezes, possa já vir com suas questões pessoais ainda não estabelecidas, encontra em sala de aula as complexidades do pensar. Como pensar no estado humano? Como pensar nas construções humanas? Como pensar no outro? Como pensar em pensar? Como pensar em ser eu? Assim, os estudantes, em profunda repetição das seleções de conteúdo, perdem a totalidade das ciências do ser, como proposto pelo Psicodrama e outras mais que não passam por meras aulas de 50 minutos. A ausência de leituras mais íntegras de determinados estudos de compreensão de nós mesmos, enfraquece as possibilidades e suprime a consciência de outros caminhos de compreensão.


Saindo da escola, agora “profissional psi”, apesar que se tornará um, saindo da inércia e caindo na vastidão do universo de ações. Há demandas demais como também profissionais perdidos demais. Qual abordagem teórica? Qual campo Psi? Sublocar? Atender crianças, adolescentes, adultos ou idosos? Individual ou Grupo? Sou tímida e agora? Tenho projeto, mas por onde começar? Preciso de fazer muitos cursos, mas quais? Com isso, a ansiedade, a frustração e a paralisia reinam no tempo “pós graduação”. São tantas desistências diversas, que o papel profissional que fica em ruínas, são despejadas nos porões do nosso ser. A infinitude de ações imaginárias, quando não há um agir concreto, inicial e insistente, leva à estagnação emocional, laboral e até física.

Contar com outros profissionais que se dedicam a caminhar junto, podendo ser mentores e supervisores pode romper com essa inércia. Além da premissa intrínseca do profissional que quer se encontrar dentro do ambiente Psi, esses outros profissionais que superaram as próprias dificuldades, agora estão à disposição de outros que estão por vir. Lembrando que mentoria e supervisão é mais um campo de atuação que pode – e deve – ser explorado, caso você já possua bagagem para tanto.

Os fazedores de cursos (workshop, formações e etc) e pós graduações sendo elas latu senso (profissional) ou strictu senso (mestrado, doutorado ou pós-doutorado), são outras categorias que possam surgir: os conservados pelo saber pleno, mas não suficientemente prontos para a ação concreta. O status de títulos e cursos para um mercado exigente tem promovido uma corrida ao molde (idealizado, claro) da perfeição do profissional Psi. Qual curso fazer? Profissional ou Academia? Não sei o que quero ainda, mas já poderia começar? Carreira onde? Usarei quando e como isso que estou achando que estou aprendendo? Será que vai dar certo? Portanto, o aprofundamento da profissionalização sempre passará por encontros e desencontros. Caberá que a cada experiência possa ser apreciada e aprendida como etapa do processo de construção do profissional que queira ser. Enquanto isso, que tal parar, estudar as ofertas e avaliar qual aquela que está mais próxima e acessível ao começo? Falo, de começar a ser o profissional que quer ser em AÇÃO.

Você chega até aqui pensando que estou só detonando e generalizando, mas ao contrário, venho apresentar uma realidade daqueles que irão se identificar com esse artigo. Caso não seja esta a sua realidade, perceba como isso se dá em sua volta com seus colegas e demais Psi’s para voltar para si mesmo e continuar em AÇÃO.


Aos estudantes frágeis, busca-se estar próximo dos que fazem em sala de aula, pois esses estão treinando mais a sua espontaneidade, ou seja, estão dando repostas para os desafios do aprendizado.

Aos profissionais perdidos, haverá muitas curvas nesse caminho, mas se apropria das pequenas ou poucas oportunidades de desempenhar o seu papel de profissional da Psicologia. Há encontros quando nos permitimos ser encontrados.

Aos fazedores de cursos, não seja um “idiota espontâneo”, termo esse que Moreno identificou como aqueles que só vão fazendo, mas não geram quaisquer transformações reais, faltando criatividade (modificar), aqui, na vida profissional. Convido para colocar seus ensinamentos em acesso às pessoas, sociedade e o mundo. Vamos?

A ESPONTANEIDADE é essa energia que quebra o gelo da inércia e nos leva à ação. É ela quem vai dar força ao estudante frágil a reconhecer tais fragilidades e buscar os meios de superá-las; que mobiliza o recém formado a saltar os muros da insegurança e colocar o seu saber à disposição do público; que fará a ponte entre o conhecimento teórico buscado nos cursos e a prática com quem mais precisa; que impulsiona os profissionais maduros a se reinventar diante do momento disruptivo que vivemos.

Nascemos todos espontâneos, mas vamos sendo embotados externa e internamente. Com isso, vamos pouco a pouco perdendo nosso brilho, nossa essência.

Mas, felizmente, como outras tantas características, a espontaneidade pode ser reacendida, reaprendida, reconectada. E acredito ser esse um movimento essencial para que alcancemos nossa plenitude, não apenas profissional, mas também da vida!

Quanto um eterno aprendiz, mas também um constante profissional da Psicologia, faço daquilo que me interessa, como o Teatro e o Psicodrama, algo a se levar e apresentar ao externo aquilo que já está totalmente intrínseco. O medo é inerente ao processo de continuidade, mas a superação pela coragem de ser, faz dela um trampolim para um mergulho profundo no infinito das relações humanas. Antes disso, compreendo, no aqui agora realizo, e lá na frente, só vejo caminhar.

Por fim, como diz o mandamento: Sê Espontâneo!


Autor DEIVERSON TÓFANO

DEIVERSON TÓFANO

@DEIVERSOTOFANO

Mestre em Psicologia pela PUC Minas, Neo Acadêmico pela ALAC BR, Especialista Nível 3 em Psicodrama pelo IMPSI, Bacharel em Psicologia e Licenciado em Teatro pela UnB, Ator profissional, Coach pela SLAC. Fundador do PSICODRAMA DO LESTE MINEIRO, do grupo de teatro SACADA - ARTE EM MOVIMENTO e do Projeto Comunitário SACADA SOCIAL. Experiência em equipamentos públicos, com passagem por CRAS, CREAS, Centro Pop, Saúde, grupo terapêutico familiar, clínicas de recuperação da dependência química e APAE. Atua com psicoterapia clínica individual e de grupo com Psicodrama. é psicólogo do CRAS e realiza vivências, oficinas e cursos de formação e conhecimento voltado ao PSICODRAMA.

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