5 Perguntas para te guiar em uma Avaliação Psicológica

Avaliação Psicológica pode ser utilizada em várias demandas, com diferentes objetivos e contextos e quem trabalha com este processo sabe que uma avaliação nunca é igual à outra. Isto porque, por mais que sejam demandas extremamente parecidas, o ser humano à frente a ela é único. Para cada avaliação será necessário um novo planejamento, estrutura e talvez ferramentas.

Então como saber como devo realizar cada Avaliação Psicológica?

Calma! Você está a alguns passos de aprender sobre a estruturação de uma Avaliação Psicológica e isso irá te auxiliar na escolha das ferramentas em diferentes demandas.

Mas, antes de iniciarmos, gostaria de deixar claro dois pontos:

  • O primeiro ponto é que esta é uma sugestão de estrutura em forma de perguntas para te guiar no planejamento da sua Avaliação Psicológica. Por isso, você pode (e deve) customizar para se adequar ao seu estilo e prática profissional;
  • Segundo ponto é que apesar deste artigo mostrar a Avaliação Psicológica em um contexto generalizado, não deixaremos de trazer conteúdos mais específicos. A idéia deste artigo é que você tenha um conhecimento flexível para as mais variadas demandas que possam aparecer. Então fique tranqüilo, porque ainda terá muito conteúdo pela frente.

Com estes pontos devidamente explicados, vamos para o nosso passo a passo.

Como dito, este passo a passo não será em tópicos, mas em forma de perguntas que você deve fazer para si mesmo quando estiver planejamento ou estruturando a realização de uma Avaliação Psicológica.

Então vamos lá!

1-  Por que e para que fazer a Avaliação Psicológica?


Esta pergunta guiará você para traçar o objetivo da avaliação e será a base para que você dê o “pontapé” inicial para estruturar todo o processo adiante.

O objetivo pode ser a própria demanda, mas deve estar bem claro para que a avaliação não seja realizada em vão.

Cuidado com demandas que inicialmente parecem simples, mas após iniciado o processo se apresentam de outra maneira, porque pode ser prejudicial ao indivíduo que está sendo avaliado, e, tomar um tempo do profissional que está avaliando.

Como assim?

Casos em que, por exemplo, a criança é levada a fazer Avaliação Psicológica por problemas escolares, ou seja, esta seria a demanda. Mas, após conversa inicial a demanda real é que os pais estão em processo de separação e gostariam de avaliar o quanto esta situação está afetando a criança.

Ou seja, após o processo ter iniciado surgem informações que mudam não só a demanda como também o objetivo da Avaliação Psicológica.

2- Quais características avaliar?

Esta pergunta fará com que você especifique melhor o que será avaliado.

Minha sugestão é que você escreva em tópicos que podem ser pontos comportamentais (avaliar atenção, por exemplo) ou pontos situacionais (avaliar como sente-se sob pressão, por exemplo) ou o que mais você acredita ser importante avaliar.

Diferentes objetivos, terão diferentes características para avaliar.

Uma idéia é fazer como um brainstorming de pontos que devem ser avaliados. Brainstorming em uma tradução literal significa chuva de idéias. A partir de um assunto, problema ou temática você irá escrever todas e quaisquer idéias que venham a partir daquela área. É muito usada em empresas para encontrar soluções inovadoras. Mas aqui, a idéia é utilizar como uma ferramenta para você pensar em diferentes pontos que você deve avaliar a partir do seu objetivo.

Por exemplo, se o seu objetivo é avaliar a capacidade de um novo funcionário trabalhar em altura, quais características devem ser avaliadas? O que uma pessoa que realiza trabalho em altura deve ter? Quais características são importantes para uma pessoa que trabalha em altura?

A partir de um brainstorming, você irá anotar tudo que servirá como resposta destas perguntas – é o momento de anotar tudo mesmo, a seleção destes itens acontece depois. Colocar-se no lugar de alguém que faz este tipo de função também pode auxiliar a identificar pontos comportamentais, situacionais ou características importantes.

3- Destas características, o que realmente avaliar?

Depois do brainstorming de características para serem avaliadas, nós devemos fazer uma triagem para saber quais características pertencem à raiz do nosso objetivo e que devemos ter uma atenção especial para realizar a avaliação.

Isto porque vocês vão perceber que tem características que são complementares, outras são contrárias e algumas ainda não são possíveis avaliar com ferramentas comuns.

“Honestidade”, por exemplo, é uma característica que muitos recrutadores gostariam de avaliar com um teste. Mas, a verdade é que não existe nada além do detector de mentiras para avaliar e esta não é uma ferramenta viável.

Então a idéia é que nesta triagem permaneçam somente características que podem ser avaliadas. Ou, se forem muito importantes, permaneça com a idéia de encontrar formas de avaliar.

4- Agora que sei o que avaliar, quais ferramentas utilizar?


Este é o momento que todos aguardam ansiosamente e que geralmente pulam outros passos indo direto para este. É o momento de escolher quais ferramentas utilizar para a realização da Avaliação Psicológica. Muitos profissionais me perguntam quais ferramentas eu utilizo para avaliar diferentes demandas e neste ponto do artigo acredito que vocês conseguem entender que não é só a escolha das ferramentas, mas o porquê destas ferramentas e como chegar à escolha delas.

Ou seja, há uma preocupação significativa com a escolha das ferramentas e pouca preocupação com o processo anterior.

A escolha das ferramentas vai ser definido a partir das características que você levantou e fez a triagem. Se você quer avaliar atenção, por exemplo, talvez seja interessante um teste de atenção. Se você quer avaliar alguma característica de personalidade, um teste ou exercício com este objetivo.

Você vai escolher suas ferramentas de acordo com o que quer avaliar.

Mas há algumas ferramentas que são base para todo o processo. São aquelas que dão suporte e direcionam o processo como um tudo, estas são a Entrevista e a Observação. Mesmo que seja uma avaliação simples, estas duas ferramentas vão estar presentes e vale ressaltar que o Conselho Federal de Psicologia orienta usar mais de uma ferramenta para realização da Avaliação Psicológica, então, elas devem estar presentes.

Entrevista e Observação serão a base e partir delas você irá complementar com outras ferramentas (testes, dinâmicas, etc).

Outras ferramentas que você pode (e deve utilizar), e que nem sempre são mencionadas, é o contato com outras pessoas além do individuo a ser avaliado. Se você acreditar que é importante uma entrevista com a família ou escola, faça contato com estes e utilize este momento também como parte do processo de Avaliação Psicológica.

5- Já tem as informações necessárias para a Avaliação Psicológica e conclusão?

Este ponto é como um check list para confirmar se você conseguiu coletar as informações necessárias, a partir da lista de características que realizou.

Se você conseguiu coletar tudo, excelente! Você já pode passar para a etapa de elaboração de documento (aqui você pode ver os diferentes tipos de documentos para Psicólogos e suas normas), e elaborar a sua conclusão com base no que foi observado.

Se você não conseguiu coletar todas as informações necessárias, ou ainda há dúvidas quanto à conclusão, calma!

Você pode voltar na etapa 3, fazer um levantamento das características que faltaram ou que você acredita serem importantes avaliar para uma conclusão mais segura, e, seguir com a escolha de ferramentas de acordo com a etapa 4.

O importante aqui é confiar em você!

Cuidado! Não queira avaliar todas as características possíveis só para sentir mais seguro, confie na sua capacidade de escolher ferramentas e o no seu sentimento quanto à conclusão final.

A conclusão final é muito difícil e causa insegurança. É seu parecer como profissional e pode ser determinante no futuro de outras pessoas. Mas, não se deixe intimidar.

A conclusão pode ser a última etapa do processo de Avaliação Psicológica, mas não necessariamente precisa ser seu último contato com o individuo avaliado. Em alguns casos você pode sugerir um acompanhamento e até mesmo a realização de psicoterapia com base na Avaliação Psicológica.

Não há um padrão para esta etapa final, isto porque vai depender diretamente da demanda, objetivo, como o processo foi conduzido, quais informações foram coletadas e principalmente da sua percepção profissional individual.

Cada profissional tem uma abordagem, um método de realizar suas atividades e por isso um modo diferente de conclusão. A Psicologia não é como uma conta matemática com um resultado único e certeiro, mas é aberta a diferentes olhares. Inclusive o seu.

Pronto!

Você já tem o passo a passo para a realização de uma Avaliação Psicológica para diferentes demandas.

Imagino que neste ponto você deve ter lembrado várias demandas que você atendeu e talvez esteja com algumas dúvidas. Por isso, vamos ver um exemplo prático a partir de um Estudo de Caso no qual foi realizado Avaliação Psicológica.

Na prática


Eduardo (nome fictício), um jovem de 17 anos foi encaminhado para realização de Avaliação Psicológica, pois apresentava comportamento inquieto na sala de aula.

Apesar de já ter sido rotulado pela escola como portador de TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade – a instituição entrou em contato com a família, para que Eduardo fizesse o processo de avaliação com um profissional de psicologia.

A família entrou em contato com o psicólogo responsável e este agendou para conversar e saber mais sobre a demanda. No dia marcado, os pais foram até o consultório e relataram que a escola suspeitava que Eduardo tivesse TDAH, pois ele era inquieto na sala de aula e eles queriam saber a opinião de um profissional qualificado a partir de uma Avaliação Psicológica.

Assim, o psicólogo agendou para conhecer Eduardo e realizar a primeira etapa da Avaliação Psicológica.

Percebam que até aqui foi realizado uma entrevista inicial com a família que trouxe a demanda de hipótese de TDAH para um jovem de 17 anos. Logo, o objetivo da Avaliação Psicológica é avaliar se Eduardo tem ou não TDAH.

Passo 1 – Estabelecer o objetivo:

Avaliar se Eduardo tem ou não TDAH.

Passo 2 – Levantar características a serem avaliadas:

As possíveis características de pessoas com este transtorno são: ansiedade, comportamento inquieto, falta de atenção, agressão, impulsividade, inquietação, irritabilidade, esquecimento, dificuldade de aprendizagem e falta de moderação.

Passo 3 – Fazer um triagem do que será avaliado:

Comportamento inquieto/inquietação, atenção, agressividade, impulsividade, esquecimento e dificuldade de aprendizagem.

Passo 4 – Escolha das ferramentas:

  • Comportamento inquieto será avaliado com a Observação durante o processo de avaliação e Entrevista sobre diferentes situações;
  • Atenção será avaliada com o teste D2, que não só avalia atenção, mas também concentração, precisão e oscilação de humor, ou seja, nós dá ainda mais informações;
  • Agressividade com nova entrevista com os pais para saber sobre o comportamento de Eduardo em casa;
  • Esquecimento será avaliado com técnica de dizer algo no início e solicitar que o mesmo repita no final, e jogo de memória de acordo com a idade de Eduardo;
  • Dificuldade de aprendizagem será avaliada a partir da Observação se Eduardo compreende os comandos das atividades.

Com o planejamento do processo de Avaliação Psicológica bem estruturado, o Psicólogo recebeu Eduardo e utilizou as ferramentas propostas. Iniciou com uma entrevista quebra-gelo para conhecer melhor a vida e comportamentos de Eduardo, propôs a realização do teste D2, e fizeram a atividade do jogo de memória. O psicólogo responsável explicou o porquê Eduardo estava ali e que ele deveria conversar novamente com a família deste e o avaliado consentiu.

Assim, foi agendado com os pais um novo encontro. E neste encontro foi questionado sobre o comportamento de Eduardo. Os pais disseram que em casa o filho é mais quieto, pois fica no vídeo game. Ele gosta de jogos violentos, mas também jogos com charadas e desafios.

Os pais também relataram que Eduardo, com dificuldade, ajuda nas tarefas de casa. E, quando ajuda, prefere tarefas desafiadoras ou aquelas em que é necessário aprender algo novo, como cozinhar.

O psicólogo se encontrou novamente com Eduardo e perguntou sobre a rotina e suas preferências. E o avaliado relatou que quando criança gostava de quebra-cabeças e livros de ficção, estilo de literatura em que é necessário o leitor desvendar mistérios.

O comportamento de Eduardo durante as atividades foi um pouco inquieta nos momentos de entrevista. Durante as atividades ele focou e ficava quieto no início, mas depois começava a ficar agitado no fim. Não houve constatação de problemas de memória.

Para não haver dúvidas, o Psicólogo agendou uma reunião com a escola para saber mais de Eduardo. A professora e coordenadora escolar afirmaram que Eduardo acaba a atividade antes dos colegas, tem um comportamento inquieto, quando é comunicado a instrução das atividades o mesmo presta atenção início, mas ao fim não presta mais atenção. As notas de Eduardo são excelentes, acima da média da sala.

Com todas as informações em mãos, inclusive análise profissional, o psicólogo chamou a família para comunicar seu parecer. O mesmo primeiro conversou com os pais e depois com Eduardo, de modo a ter apoio da família. A conclusão final é que Eduardo não apresentava sinais de TDAH como afirmava a escola, mas que tinha suas hipóteses.

A primeira é que Eduardo não se interessava pelas atividades da escola pois são fáceis e nada desafiadoras, pois os testes apresentaram como resultado comportamentos dentro da média, e, o mesmo relatou que gosta de ser desafiado. Para tanto, seria necessária a família juntamente com a escola promover exercícios mais motivadores e desafiadores para o mesmo.

E, a segunda hipótese que não dispensa a primeira, é a possibilidade que Eduardo tenha Quociente de Inteligência – QI – acima da média e essa condição não esteja sendo levada em conta. Por isso, foi sugerido que o mesmo fizesse o teste uma clínica especializada para apurar tal informação.

Em ambas as hipóteses, foi sugerido que Eduardo faça um acompanhamento multidisciplinar entre a escola, psicólogo responsável e família para promover desenvolvimento e interesse dele pelas atividades.

Pronto!

Está realizada a Avaliação Psicológica, não só com hipóteses, mas com encaminhamento do que é necessário para promover qualidade de vida para o avaliado e familiares.

Não necessariamente a avaliação deve conter prescrições, como algum encaminhamento, mas quando o profissional julgar necessário é importante que seja comunicado. Acredito que faz parte da ética como profissional essa promoção da saúde emocional.

Espero que este artigo tenha deixado ainda mais claro o processo de Avaliação Psicológica de um ponto de vista generalizado e que auxilie você profissional a estar seguro para este tipo de procedimento.

Autor Tássia Garcia

Tássia Garcia

@tassiagarcia

Eu sou Tássia Garcia, psicóloga por formação e empreendedora por vocação. Aprendi estudando, errando e praticando que ser Psicóloga é muito mais que eu aprendi na graduação. Atualmente utilizo meus conhecimentos em avaliação psicológica, inovação profissional e a experiência como coach e consultora para auxiliar outros profissionais a se posicionarem no mercado, construir estratégias de marketing e terem maior reconhecimento.

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